o ano está quase acabando
o mundo girou
a vida fez reviravoltas
e tudo voltou ao mesmo ponto
penso o que podia ter sido e não foi
e reencontro velhos amigos (ou não)
-nada mudou
tudo parou.
está tudo bem.
desabrocha a cabrocha e a chuva cai fininha diante de meus olhos sãos.
É fim de tarde e meu coração está vazio. Ouço a sirene da polícia. É a mim que procuram? Pelo crime de amar demais. De sonhar demais. De não ter captado a essência da primavera, mas ter raptado um serafim. De desfrutar da beleza das flores do ipê sem pedir licença. Esse sol morno dá uma preguiça. O calor tá bravo. A vida tá foda. Mas vou até o fim.
Estão minando minha criatividade. Queria ter feito muitas coisas de outra maneira, mas teria sido melhor? "Valeu a pena?/ Tudo vale a pena, se a alma não é pequena..." Esse é de Fernando Pessoa. "Tudo vale a pena, se a alma é morena." Esse é meu. O que importa é a felicidade e o amor acima de tudo.
Mas afinal, o que sabe uma garota de 19 anos que já desde muito cedo está aderindo à misantropia?
Ela era culpada. Do seu próprio sofrimento e do sofrimento alheio. Tinha culpa de ser inocente e de acordar ante as manhãs empassaradas com o cabelo despenteado, e de não captar o som das borboletas. Tinha vergonha de existir, e medo de que alguém a pisoteasse ou a olhasse torto por ser quem ela era. A vastidão do mundo a deixava extasiada. A vida era pungente. Talvez fosse louca, por não se adequar à maioria. Via donas conversando futilidades, com a voz feia e o cheiro de rotina e de vida desgastada. Será que a vida dela também não estava se passando em vão? Via árvores sem folhas, sentia o tempo seco, (não) lavava a louça. Conversava com meia dúzia de pessoas, via as paisagens e os sons cotidianos. Mas ante a imensidão do ínfimo, ela via poesia.
Enquanto suas vértebras se reverberavam madrugada adentro, ela sonhava. Com o amor platônico que sentou ao seu lado no ônibus, certa vez, há 3 anos atrás. Depois dele, nenhum amor foi igual. Ela desde então resplandecera em outros amores, mas nenhum conseguia captar aquela solidão tímida e ingênua do rapaz que sentara ao seu lado no ônibus na volta para casa. Por isso ela escrevia todos os dias tentando remontar a essa época, mas tudo parecia agora tão distante, ela já têm 19 anos, está na universidade, seu corpo já não esbanja mais a mesma saúde de antes. Ela bebe, para fugir da realidade. O tédio do cotidiano a impede de cantar e olhar estrelas. Então ela escreve, coisas estranhas, sem valor literário, só para reinventar sua realidade. Quem sabe. Um robô chegou à Marte, então ela com certeza iria conseguir reencontrar aquele rapaz, mas ele já não seria o mesmo, a vida já não era a mesma. É assim mesmo, os nossos sonhos envelhecem, como nós envelhecemos. Só a poesia não envelhece. Será mesmo?
Quero cantar a canção mais linda Tocar o âmago do ser de um passarinho Cantar junto com Elis Regina, no céu E desenhar miltons com miríades e sereias... A tonalidade do som é minha sinestesia cósmica Pra renascer mais pura
O que fazer em um dia chato, amanhecido com cheiro de nada? Talvez fazer brotar novas emoções no quintal da alma, ir a Marte amar-te, dançar com leveza até as estrelas... só pra disfarçar minha solidão, crio amores imaginários... e escrevo diários. Tento criar meu próprio mundo.
O amor surgiu, ante ao caos de minha vida vazia Derrubou tudo, não deixou vestígios E agora, que ele foi embora Meu corpo transpira desejo, a tanto tempo intocado E só o que me restou foi minha poesia Mais nada
E numa tarde sem sentido como essa, me sento para escrever E quero encontrar uma saída, uma solução, para o mistério da vida E percebo que basta dar tempo às coisas, que a vida tem seu ritmo Que não adianta chorar sobre o leite derramado
Ando sem inspiração, talvez depois de tanta piração, loucura, enfim O poeta é um sonhador, quer alcançar as estrelas ...mas esquece o caminho