All you need is love.

"A lua que eu mais gosto é a lua nova... e a crescente, porque lembra o sorriso do Cheshire Cat."
bacante boêmia vênus invisível veleia volátil e vil - em vão?

Black star dancing in the end of life.

Take these broken lights and learn to shine.

All your life, you were only waiting to this moment to be loved.

26 de março de 2011

Rosas

Lembranças singelas
De um sentimento indefinido
Me tornam sentinela
De uma noite sem sentido

O teu relance analiso
Sua imagem some ao longe
Mas aquele seu sorriso
No meu coração se esconde

Com olhos marejados
Sinto de perto a ferida
E permaneço abismado
Com a alma desiludida

De noite então o pranto
É meu melhor acalanto

quadro: Waterhouse

18 de março de 2011

Arte de dobrar flores ao meio e de olhar estrelas


  Estrelas magníficas, magnéticas, magnâmias. A íris se caleidoscopia, vira forma e flecha. Há tantas coisas que eu não sei com quais palavras descrever, como uma que descreva "tarde morna, nostálgica e preguiçosa das superquadras de Brasília" ou "caleidoscopia e vitralização do olhar", ou ainda "melancolia chopiniana".
  Chopin me toca a alma. Ouço suas músicas como se seu som enternecedor me fizesse viajar para dentro de minhas emoções mais profundas, minhas lembranças mais longíquas, pensamentos mais absurdos, sonhos mais loucos e desejos mais latentes.
   Sinto meu coração como um todo, cada dia mais próximo de mim... além da dor de sermos tão humanos. Sou capaz de voar com meu coração, porém minhas asas se partiram por causa de seu sorriso. ...As voltas de seu sorriso são cruelmente belas. Seu sorriso para mim agora é fugídio, e já nem posso mais lembrá-lo bem. Logo sua imagem desaparecerá de mim, e eu já não saberei mais se tudo passou de um sonho ou não.
  Só restarão algumas músicas de Chopin e um sentimento difuso de que perdi alguma coisa.
   ...Por vezes sou extensamente repetitiva e redundante, eu sei. Mas é que os mesmos sentimentos voltam à tona, e surgem de novo da mesma forma, com as mesmas palavras, como num dé jà vu. Tenho tido insônia, pois à noite é quando os pensamentos mais borbulham em mim, como se tivessem sido aquecidos ao longo do dia, e então não posso conter a explosão. O coração é minha bomba-relógio, marcando o tempo, como o compasso de uma música. A música inebria minha alma - isso eu já disse um milhão de vezes. Mas não custa dizer outra vez, até esse sentimento se infiltrar dentro de mim.
    Quero voar mais alto, presenciar o nascimento de uma flor, descobrir os mistérios da cor azul, reger um coro de passarinhos. Quero o amor na sua forma mais pura, real e verdadeira, como um sorriso de criança ou o cheiro de uma rosa. Quero acordar e poder renascer de novo, da maneira que eu quiser; livre, liberta.

23 de fevereiro de 2011

Frialdade

A luz tão fria das estrelas
É mais fria que teu desamor.
Então, com medo de não tê-la,
Grito um grito de horror.

Na iminência de perdê-la,
O peito já pressente a dor
E não podendo então mais vê-la,
Fecho os olhos, com pavor.

Corvos riem da desgraça,
E me bicam sem piedade
E antes que eu me desfaça
Cai dos céus uma tempestade.

A chuva penetra minhas cicatrizes
E os raios partem meu coração
Viveremos para sempre infelizes
Sete milhas abaixo do chão.

quadro: Willem de Kooning.














17 de fevereiro de 2011

Cisne Negro [contém spoilers] - por Gabriela Ziegler

 O delicado delírio histérico-psicótico e a beleza macabra do narcicismo, do sexo, da dança (e) da morte, deste filme de Darren Aronofsky, que rendeu o Oscar de Melhor Atriz à Natalie Portman, nos traz para dentro de sentimentos muito peculiares.
  A história resume-se no seguinte: a bailarina Nina quer o papel principal de Rainha dos Cisnes, que irá incorporar as duas irmãs: o Cisne Branco e o Cisne Negro. Porém, ela tem medo de perder o papel, e a chegada de uma concorrente, Lily, acentua esse medo, e faz também ela defrontar-se com lados de sua própria personalidade que ela insiste em negar. Ela então envolve-se com Lily, numa tentativa desta de 'esquecer as diferenças', indo para uma festa com ela e consumindo drogas.
  Nina a partir de então vive uma série de delírios, onde tudo ao seu redor parece desmoronar, desde sua própria imagem até o mundo ao seu redor, e onde todos parecem querer pesegui-la e destruí-la. Ela acredita estar se transformando em um cisne, e possuir dentro de si ambos os cisnes. Ela acredita ter tido uma relação sexual com ela, quando na verdade foi um delírio dela, e acredita ferir a outra, quando na verdade feriu a si mesma. Em seu espetáculo final, ela dança  toda a dor de uma vida, e embora esteja dançando com sua companhia de dança, ela dança centrada em si mesma, em seus sentimentos, e pode ainda ter um último vislumbre de sua mãe, emocionada com a filha. 
  Ao presenciar esse espetáculo, nós temos a impressão de também estar dançando,  bela porém sofridamente, podemos sentir na pele todas sensações e desesperos tão comuns a todos nós. O corpo, que é a casa de nossa alma, sofre junto com ela, vive com ela, morre com ela. E a nossa sociedade às vezes nós faz ou sobrevalorizar ou alienarmo-nos de nossos corpos, daí a origem das neuroses modernas.
   Nina espelha em Lily tudo que ela tem medo de ser: sensual, autoconfiante, arrogante, corajosa, livre. Esses aspectos nela são tão reprimidos que ao se deparar com essa imagem, tudo isso surge à tona nela, na forma do Cisne Negro, em oposição ao Cisne Branco, que o seu diretor diz que condiz mais com sua personalidade. Então esse lado "mal" é despertado nela, e é quando ela quer destruir tudo que a acorrenta, desde a rival, a mãe superprotetora, e a própria vida enfim.
  Há um sentido muito mais místico por trás de tudo isso: há o Feminino, o Yin, em oposição ao Masculino, o Yang; os arquétipos da mulher boa e da mulher má; o amadurecimento sexual e emocional; o nascimento de asas; a analogia ao Patinho Feio, que na verdade é um cisne; os nossos espelhamentos no outro; o nosso lado obscuro que teimamos em fingir que não existe; as hierarquias na arte; as tradições da arte; o sonho de libertação, enfim.

1 de outubro de 2010

Morfeu (pensado durante o sono e alterado quando acordada)

foto: Derek Morley.




Estou a ponto de parir um poema

Sem paradoxos
Sem parassínteses
Sem poesia
Sem pareceres
Sem piadas
Sem poema
Hei de amamentá-lo
Com todo zelo e cuidado

O canto das cigarras me acordou
É primavera e tudo quer reproduzir
Os besouros voam procurando seus amores
A Grande Valse Brillante de Chopin
É linda e alegre
Como você
"Hoje a gente nem se fala
Mas a festa continua
Suas noites são de gala
Nosso samba ainda é na rua"
No Café da Rua 8
É noite
Numa sexta-feira
Todos dançam

Tudo parece tão absurdo
Meu piano estava mudo
Mas voltou a cantar
Com vivacidade
E vontade
E verdade
E veracidade
E virgindade
E voltagem
E voltas
E valsas
E volátil véu
Julgamento sem réu

Me sinto como o inseto d'A Metamorfose de Kafka
Incapaz de falar, incompreendido por todos
Pra no final sua família ficar feliz pela sua morte
Mas não, não é o caso.
Todos estão ao meu favor
Só eu estou contra mim
Contra-si
Contrai-se
Contra-senso
Contra-cena
Contra-semente
Semente de flores
Semente de rosas

Eu recebi muitas rosas
No dia do meu aniversário
E no dia seguinte
Vermelhas, rosas
Pena que sejam tão efêmeras
Como nós mesmos o somos.

Sou uma borboleta
Me comunicando com um gafau
Só os insetos se entendem
Do filo Artropóda
Arte poda árvore
Arte pode
Arte rapsoda
Arte fugaz
Arte frugal
Arte final

Anna, me chama! Saudades de você.
Winie, me ensine! Você é um grande poeta.
Yasmin, liga pra mim! Você é uma futura historiadora.
Dan, não me esqueça não! Você é um bom fotógrafo.
Mãe, te amo! Pai, você é demais! Irmãos, vocês estão no meu coração!
E tantas outras mensagens eu escreveria, mas acho que começaram a ficar meio deslocadas nesse poema.
E por que não? Já estava se desmantelando o teorema...
Afinal, isso é um verso livre...
E eu vou parando por aqui.

2 de agosto de 2010

Desenha-me um carneiro.


“Desenha-me um carneiro.” Disse o Pequeno Príncipe. E Beethoven compôs a Sonata Pastoral, que é delicada e enaltece a alma como o mais meigo carneirinho. O piano faz enleios,volteia notas e melodias celestiais.  É como pular e correr pelos campos. Meu coração dança no compasso da música, e minha alma se enaltece. Leves tensões na música demonstram a angústia que venho sentido. Mas logo acabam. Afinal, a vida é bela pra quem se chama Gabriela. Rimas pobres, ideias rarefeitas. Voltemos à Sonata Pastoral. É como encontrar-se com o Pequeno Príncipe e seu carneiro. O Pequeno Príncipe em um ambiente bucólico entre cuidar dos vulcões e de sua rosa e o carneiro brincando com seu fiel pastorzinho. Pois bem. Por que não chamar o Pequeno Príncipe de O Pequeno Pastor? Como em uma das peças da suíte Children´s Corner, de Debussy, que se chama 'The Litlle Shepherd'... O pequeno pastorzinho... O Pequeno Princípe era, de certa forma, o pastorzinho de um carneiro só, e jardineiro de seu planeta. ...Por que não do universo?...

“- Adieu, dit le renard. Voici mon secret. Il est très simple: on ne voit bien qu’avec le cœur. L’essentiel est invisible pour les yeux.
- L’essentiel est invisible pour les yeux, répéta le petit prince, afin de se souvenir.
- C’est le temps que tu as perdu pour ta rose qui fait ta rose si importante.
- C’est le temps que j’ai perdu pour ma rose… fit le petit prince, afin de se souvenir.
- Les hommes ont oublié cette vérité, dit le renard. Mais tu ne dois pas l’oublier. Tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé. Tu es responsable de ta rose…
- Je suis responsable de ma rose… répéta le petit prince, afin de se souvenir.”

“- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa… repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa…
- Eu sou responsável pela minha rosa… repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.”


... 'Je suis la rose et tu est le petit prince...'

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2 de julho de 2010

tentativa de conto

Um dia a menina acordara sem vontade de dizer nada. Não porque achasse que não havia mais nada a dizer, mas simplesmente porque achava que nada mais valia a pena ser dito; havia a pena de nada dizer, mas no entanto essa ainda era pior do que a de não dizer nada. Como viver uma vida em silêncio, se nossa sociedade é formada por palavras e diálogos o tempo todo? Como a menina irá sobreviver?  Seus pais suspeitaram de depressão ou envolvimento com álcool. Podia até ser isso, mas no fundo, no fundo profundo de sua essência, não era nada disso. Ela simplesmente desacordara sem aquele desejo de tantas palavras. E passara o dia todo apenas comendo, indo a escola e dormindo. À noite o silêncio esticava suas vertebras, que se reverberaram madrugada adentro, e de manhã o calor pedia permanência. Seu amigo não reparara a cor de suas muletas, e sim seu coração cor-de-rosa, que era muito mais do que isso. A menina boquiabriu-se. Seu amigo desmaiara, pois ela deixara escapar:

'A lua veio nos observar, mas nem nos chamou pra festa. Porque somos obrigados a comer? Quero ir a outro planeta, ao meu planeta. Sabiam que?'

Quando voltara a si, seu amigo respondeu, apontando com o dedo indicador para a sua cabeça:

'As ideias estão todas aqui dentro, não há como elas fugirem.'

Essa ideia reconfortara a menina, que começara a contar um conto sobre a história de dois insetos.